Ouçam o que as tias têm a dizer!

Lembro de quando eu tinha 5 anos de idade. De quando chamávamos a professora da escola primária de ‘tia’. Uma forma de tratamento que traduzia confiança, proximidade e um certo carinho. A tia ensinava. Ela ajudava a fazer as tarefas e a traçar os pontilhados. Assim como na escola, na cozinha também temos as tias. E aqui, as chamo assim também como forma de respeito e consideração . A maioria das tias não escolheu fazer seu recital ali. Não era esse seu sonho nem seu objetivo de vida, mas veio como necessidade de obter trabalho, complementar a renda, alimentar a família, e dar um futuro digno aos seus filhos e netos. É o primeiro emprego delas (geralmente iniciando ‘na louça’) ou vieram de outras atividades destinadas às mulheres como diarista, faxineira ou empregada doméstica. Seus talentos deixaram de ser exclusivamente caseiros para ganhar as cozinhas profissionais, cuja evolução dependeu, e muito, dessas mulheres.

Campi, Vicenzo - Cucina
Cucina – Vicenzo Campi

Muitas tias passam pela nossa carreira fazendo o papel de professora, guia e maestrina. Seus ensaios não compreendem somente as técnicas mas toda uma escala de conhecimento mágico dos processos que envolvem uma cozinha caseira. Além de possuírem todo  um knowhow de planejamento, cardápio, compras e comando, porque já fazem isso naturalmente em seus lares.  Suas bagagens conseguem ir além de muitos professores de faculdade ou escola técnica e até de muitos chefs que protagonizam as Óperas gastronômicas atuais. Essas grandes profissionais infelizmente ainda não têm seu espaço conquistado e respeitado no mercado de trabalho. Elas continuam fadadas à salários mais baixos.  Ficam eternamente paralisadas em postos como os da louça, confeitaria e garde manger, aguentando comentários misóginos como: “lugar de mulher é fazendo salada porque é mais delicado, o restante é muito pesado pra você” (fale isso para as que trabalham na louça).  Se tocam a cozinha quente, só se for em buffet por quilo, porque imprimem uma cozinha com gosto de casa, julgadas incapazes de protagonizar uma cozinha mais ‘sofisticada’. Sofrem com o novo modelo de mercado gastronômico atual em que julga-se ruim quem não tem diploma, e, são tratadas como ‘tia’ (em tom pejorativo) por moleques boçais recém formados, rebaixando e desvalorizando o precioso som que ecoa dessas belíssimas sopranos da culinária: o ato de cozinhar com amor e paixão.

Aos meus queridos amigos e amigas, jovens profissionais de cozinha, aos chefs, aos gestores e donos de estabelecimentos: ouçam o que as tias têm a falar! Respeitem sua maneira de ser. Que sejam tratadas como profissionais, como oráculos da cozinha. Dediquem-se a observá-las quando estão cozinhando. Troquem conhecimento com elas. Sejam gentis. Com elas aprendi a fazer o arroz e feijão de cada dia; bolos dos mais variados tipos; como empanar perfeitamente; como fazer um bela feijoada; como dar vida aos cozidos e assados; o empadão, a ambrosia, o doce de leite; uma fantástica paella; uma dobradinha que nunca provei igual; pão caseiro, pudim de leite, biscoito; como limpar bem uma chapa durante o serviço sem usar produto químico; como lavar a louça corretamente; o melhor cozido de bacalhau, cogumelos e morcilha que já comi até hoje. E lógico, os vários atalhos e os “pulos do gato”. Dedicando-se um pouco mais e, se as observarem a cantar, poderão ainda desfrutar de uma melodia saborosa  e cheia de foco, energia, dignidade, sabedoria e altruísmo.

Ouçam o que as tias têm a dizer! Elas detêm o poder dos conhecimentos culinários adquiridos pela vivência empírica. Elas são nossas mães, nossas avós, nossas tias…

 

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